A Verdade que ilumina também queima
Caminhar em Cristo é mais duro do que pensei. A Verdade que ilumina também queima. Os últimos dias foram talvez os mais exigentes da minha vida, do ponto de vista espiritual, porque tive de pedir desculpa e revelar coisas das quais me envergonho muito. Abrir as janelas ao ego para deixar a luz entrar é desconcertante. De repente, a narrativa que me conto, a identidade criada para proteger, não sei bem o quê, cai por terra. Mais do dizer "aceito Cristo como meu salvador", tenho de agir. E essa ação dói porque não quer saber acerca das histórias contadas para contextualizar ou harmonizar coisas que, bem no meu âmago, sei que são ilusão. Dói porque há uma perda real de controlo em relação ao desfecho. Porque surgir nu e vulnerável perante os próprios erros é duro. E porque dizer a verdade não significa que o desfecho seja aquele que gostaríamos.
Ainda assim, o troco vale o pagamento. Sem qualquer margem de dúvidas. Porque recebo o troco em paz. Porque há uma serenidade que se instala e diz: o que tiver de acontecer por decidires contar a verdade é o correto. Aquilo que sofre é o ego mas o espírito aproxima-se de Deus. Simultaneamente, sinto-me despido. Sem certezas de nada. O silêncio parece ser, cada vez mais, um cobertor confortável. Revelei algo que guardava no coração há oito anos e que magoou muito uma pessoa que amo. Creio que isso me mudou para a vida toda. Por vezes, tirarem-nos o chão debaixo dos pés é apenas obrigar-nos a descer do pedestal. Um falso pedestal moral de onde, aqui e ali, dava por mim a julgar outros. Risível, na realidade, agora que penso melhor.
Estou em plena reestruturação interior. E não sei que mudanças advirão na minha vida, fruto desta nova bússola. Haverei de falhar muitas vezes, e muitas vezes tentarei corrigir a rota. Mas sinto que este é, talvez, o compromisso mais sério que senti na vida. Partilho esta mensagem com pesar mas, também, com esperança. É a mentira que nos torna cativos. Cada vez que mentimos, sabendo que o correto seria dizer a verdade, algo em nós se afasta do centro. E eu estou farto de proteger um espantalho.
Não há retorno agora. Mesmo que caminhar sob brasas calcine os pés, prefiro isso a andar sob tapetes orientais que protejam os pés mas dilacerem o coração. A promulgação de não querer esconder-me mais é demasiado espampanante. Demasiado soberba. Direi, ao invés, que procurarei uma maior consciência para a honestidade, mesmo quando ela parece ser danosa. Especialmente aí. Pois dizer a verdade quando temos a ganhar com isso é fácil. Difícil é escolhê-la acima de ganhos pessoais. É uma afirmação grande. Exigente. Mas é também humilhante, no sentido em que me fará mais humilde.
Jesus diz, em Mateus 19:18 "Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho". Também em Mateus 22:37-39 "E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo".
Quão difícil pode ser?