O jejum terminou
Aproximei-me de Deus quando percebi que tinha chegado ao fim de mim próprio.
Ouvi esta frase por parte de um amigo ontem, e há muito tempo que uma frase não me fazia tanto sentido. Deus não é realmente algo que nos acontece. É o oposto, é aquilo que se revela quando paramos de agitar as águas.
A vida é muito louca e indefinível. Podemos andar carregados de certezas sobre a forma "certa" de viver durante décadas, mas basta um minuto para atirar todas essas crenças para o balde do lixo. Porque nunca foi suposto saber como viver. O objetivo sempre foi o inverso: viver, mesmo sem saber. Assim que semearmos dúvidas em nosso coração, ou deixarmos que elas cresçam como ervas daninhas, de pronto surgirão gurus e mestres com respostas aquecidas no microondas para nos "salvar". Porque alguém que não se baste a si próprio é presa fácil para aqueles que vendem certezas em falas decididas.
Se há algo que a vida me tem ensinado, é isto: quando permito interferências na minha relação pessoal e íntima com Deus, estou a abrir lacunas ao diabo, o anjo caído com a voz mais doce, capaz de me levar por caminhos ínvios, com a impressão de que sigo em direção ao céu. Sei isso porque sei o que é sentir o peso esmagador da ansiedade, e carregar o peso da minha própria existência como se fosse Atlas. Vivi tempo demais a achar que eu era o centro de todas as respostas e, ao mesmo tempo, não tendo a certeza do que deveria fazer. Vivi tempo demais tendo a certeza de que Deus não existia e duvidando da minha própria existência. Mas esse tempo terminou e, com ele, a necessidade de respostas.
2026 é um ano 1 (2+2+6 = 10, 1+0= 1) e os anos 1 são de (re)começos. Ainda que com turbulência, brutidade e de forma inesperada. A pergunta não é se iremos mudar ou não, mas se estamos prontos para a mudança quando vier. Porque ela vem. Ponho a minha fé em Deus, sim, porque não tenho ombros fortes o suficiente para carregar todo o peso. Não o faço como fuga ou resignificação da minha existência, mas como confissão interior de que há mais, além do que a minha mente limitada pode conceber. Deus cresce em mim ao mesmo ritmo em que entendo que percebo bem menos da realidade do que julgava.
Não, o sofrimento não vai terminar. Nem as perdas. Nem o caos. Nem a dúvida. Não, as lágrimas não atracarão sempre em portos seguros. Não é essa a promessa. Nunca foi. A promessa é a de um reino para além deste mundo material. Além da lógica. Da razão. A promessa é a da frutificação após a morte de quem somos.
Portanto, viverei. Não como quem sabe, mas como quem sabe que não sabe. Como quem sente que a sua única bússola é a relação com Deus, que abre espaço para nos ouvirmos de forma sincera, sem ruído. E as palavras estão no centro do meu caminho, nem que passe a vida toda a tentar dominar este código da melhor forma possível, apenas para que o silêncio ganhe um detalhe extra, apenas um vinco a mais, uma dobra. Nem que seja para melhorar ao limite do possível a arte de estar calado, continuarei a escrever. Mas não como substituto da vida. Sou responsável pelas palavras, mas o silêncio brota de Deus. Agora sei isso. E estou profundamente grato.
Portanto, o fim de mim próprio nunca foi o fim da estrada, mas apenas a continuação da viagem em sentido contrário. Em vez de para fora, o trilho faz-se para dentro. Sem desculpas. Sem medos. Porque o espírito estava com falta de pão. De água. Mas agora terminou o jejum.