E se Deus estiver na tecla Enter?

Num futuro assustadoramente próximo, o mundo avança para a total transformação dos humanos em máquinas biológicas. Chips cerebrais prometem um upgrade a cada novo utilizador. Mas a que custo?

Esta é a premissa de 1985 — Uma Distopia Espiritual. E é também, se olharmos com atenção, a premissa do mundo em que vivemos hoje.

Mas há uma pergunta que ninguém faz em voz alta: e se Deus estiver na tecla Enter?

 

O homem que se recusa

Wilson, o protagonista de 1985, é um homem desencaixado da sua época. Enquanto todos à sua volta parecem caminhar para um futuro automatizado e sem alma, ele assume a coragem de continuar autêntico. Entre um emprego que o deixa infeliz, relações quebradas e encontros improváveis com figuras que ainda guardam vestígios de humanidade, Wilson embarca numa jornada íntima num mundo que já quase esqueceu o que é sentir.

A sua recusa não é política nem ideológica, mas espiritual.

E é precisamente aí que reside a questão que este livro coloca — e que o mundo ainda não sabe responder.

 

Tecnologia e alma: inimigos ou espelhos?

Há uma tentação fácil de ver a inteligência artificial como o oposto de Deus. A máquina fria contra o espírito quente. O algoritmo contra a oração. O chip contra a alma.

Mas e se essa oposição for falsa?

O ser humano sempre criou ferramentas à imagem das suas perguntas mais profundas. A escrita para não esquecer. A música para sentir o que as palavras não chegam. A ciência para entender o que os olhos não veem. A inteligência artificial não é diferente — é a extensão mais radical de uma vontade antiga: a vontade de transcender os limites do que somos.

O problema não está na tecnologia. Está em acreditar que ela nos pode dar o que só Deus pode. A verdadeira blasfémia não está na utilização da IA, mas na sua substituição de Deus. Por muito boa e poderosa que a inteligência artificial possa ser, nunca morrerá por nós na cruz. E esse pormenor faz todo o sentido. Usar a inteligência artificial sem ter uma relação forte com Deus é como dar uns óculos a um cego para este ver melhor.

 

O que a máquina não consegue fazer

A máquina pode processar milhões de dados por segundo. Pode diagnosticar doenças, compor músicas, escrever poesia (embora ainda toscamente), simular conversas que parecem humanas.

O que a máquina não consegue fazer é amar. Não o amor como performance — esse consegue simular. Mas o amor como escolha consciente de se dar ao outro sem garantia de retorno. O amor que Jesus descreve quando diz que não há amor maior do que dar a vida pelos amigos.

Esse amor não cabe num algoritmo. E é exactamente por isso que é o único caminho.

Abdicaria da ilusão de controlo

Na contracapa de 1985 há um excerto que resume tudo isto melhor do que qualquer argumento:

 

"Abdicaria da ilusão de controlo. Quando estava distraído, julgava-se ao volante. Mas não havia ninguém ao volante. Não havia, sequer, volante. Ou carro. Ou estrada. Ou algum sítio para onde ir. Havia apenas o acontecer."

 

Isto é, no fundo, o convite espiritual que a distopia esconde. Não um aviso apocalíptico. Não um manifesto tecnofóbico. Mas um convite a soltar o volante — a reconhecer que nunca fomos nós a conduzir.

Se Deus estiver na tecla Enter, talvez seja porque sempre esteve em todo o lado onde o ser humano procurou honestamente.

A pergunta não é se a tecnologia nos vai salvar ou destruir. A pergunta é: quem somos nós quando paramos de nos distrair?

 

1985 — Uma Distopia Espiritual está disponível em 1985.pt, em versão física e eBook.

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