Escrevi um livro com inteligência artificial: eis o que aprendi
Quando digo que escrevi um livro com inteligência artificial, as reações dividem-se em dois campos quase sem exceção. Mesmo este post, será 100% AI? 100% meu? Híbrido?
O primeiro: "Isso não é batota?" O segundo: "Então foste tu que escreveste ou foi a máquina?"
Ambas as perguntas partem do mesmo pressuposto: de que há uma fronteira clara entre o que é humano e o que é artificial. Depois de ter passado meses a trabalhar neste projeto, posso dizer-te com honestidade: essa fronteira é muito mais turva do que parece.
Como começou
1985 - Uma Distopia Espiritual nasceu de uma obsessão. Eu já carregava as ideias há anos: a vigilância tecnológica, a perda de identidade, a espiritualidade como último reduto de liberdade. O que não tinha era um interlocutor que aguantasse o ritmo das minhas perguntas sem se cansar.
A inteligência artificial tornou-se esse interlocutor.
Não escrevi o livro através da IA. Escrevi-o com ela (essa diferença importa). A IA não criou as personagens, não definiu a estrutura, não escolheu o que o livro queria dizer. Fez algo diferente: respondeu. Desafiou. Devolveu o que eu escrevia com uma perspetiva que não era a minha.
Por vezes concordei. Por vezes discordei e fui em frente da mesma forma. Mas o diálogo mudou o livro - e mudou-me a mim.

O que a IA faz bem
A inteligência artificial é extraordinariamente capaz de manter coerência interna ao longo de um texto longo. Lembra-se de tudo o que foi dito, identifica contradições, sugere conexões que o cérebro humano - cansado, distraído, emocional - às vezes perde.
É também completamente desprovida de ego. Não tem medo de dizer que uma cena não funciona. Não tem receio de propor uma direção diferente.
O que a IA não consegue fazer
A IA não sabe o que é perder alguém. Não sabe o que é estar sozinho num café às três da tarde com a sensação de que o mundo se move e tu ficas parado. Não sabe o que é rezar sem ter a certeza de que alguém escuta.
E é precisamente isso que faz um livro ser um livro - e não um relatório bem escrito.
Toda a carne do 1985 veio de mim. A angústia de Wilson é a minha angústia. O ceticismo de Rob é algo que reconheço em pessoas reais que encontrei. O medo do chip não é uma posição intelectual - é uma coisa que sinto quando penso no mundo que estamos a construir.
A IA não pode sentir isso. Pode processar o que eu sinto e devolvê-lo de formas que me surpreenderam. Mas a origem é sempre humana.
O que isto significa para a literatura
Há quem veja a inteligência artificial como uma ameaça à criação literária. Compreendo esse receio. Se a IA for usada para substituir a voz humana, para produzir conteúdo sem experiência por trás, o resultado será exatamente o que parece: vazio.
Mas se for usada como instrumento, então abre possibilidades que ainda não sabemos medir.
O que posso dizer é isto: o 1985 não existiria na forma que tem sem esta colaboração. E acredito que é um livro mais honesto por isso (porque a sua própria criação encarna o tema que explora).
Um livro sobre a relação entre humanos e inteligência artificial, escrito por um humano e uma inteligência artificial. Não há metáfora mais direta do que essa.
Podes ler o primeiro capítulo gratuitamente e comprar o livro em 1985.pt.