O Brasil de que sou feito

Ir ao Brasil foi como visitar uma parte de mim que não conhecia, mas que sabia que estava lá. Uma parte mais caótica, desarrumada, brilhante. O Brasil pede-nos que deixemos os pensamentos na mesinha-de-cabeceira e que comecemos a pensar com os pés. Mexe-te, diz-nos a terra que Pedro Álvares de Cabral descobriu há quinhentos anos, e que agora me está a descobrir, a vida não é feita para pensar na vida; é feita para viver. Habita os dias por inteiro, problemas haverá sempre, mas isso não impede a felicidade de estar vivo, de estar aqui.

Minas Gerais e Bahia ensinaram-me isso. Mostraram-me que luz e sombra vivem juntos e se mesclam e devolvem um Brasil cheio dele próprio, e tão intenso, que por vezes perde o foco de quem ele mesmo é.

Foi sobretudo por isso que o vídeo sobre a minha "ressaca pós-Brasil" viralizou tanto. Porque às vezes é preciso alguém com um olhar de fora mostrar os detalhes que se tornaram invisíveis para quem está "dentro".

Ser recebido no seio duma família mineira, e ver de perto o amor com que se tratam todos, no meio da confusão, do falar alto, da comida e bebida que nunca falta, e da licença que temos de pedir ao estômago para aguentar apenas um pouco mais de feijão tropeiro, só mais um pãozinho de queijo, apenas mais uma colher de arroz, foi algo que não esperava. Muito sinceramente. É como se não soubesse a resposta adequada para tanto amor, tanta preocupação.

E a Bahia... ai a Bahia... estive onde os meus antepassados chegaram pela primeira vez, atravessando o oceano, e percebi por que nunca mais quiseram partir. Voltar para o frio de Lisboa? Voltem vocês! A energia é eletrizante, é como se varresse as amarguras para longe. Aqui a tristeza tem de ter muita massa muscular para se aguentar, porque tudo pede dança, churrasco, alegria. É uma forma totalmente distinta de levar a vida. O candomblé mostra de que forma influências tão distintas e misturas tão arreigadas fazem da Bahia esse poço de energia que fervilha e encanta muitos dos que por lá passam.

Passámos também pelo Rio e SP, mas com menos tempo. Deu tempo para ser abençoado pelo Cristo Redentor e testemunhar a beleza da paisagem, mas deixou a certeza de que terei de voltar a visitar este país-continente, de Manaus a Florianópolis, passando pelo nordeste, interior, enfim, todos os recantos, com uma vontade grande de conhecer mais a fundo esta cultura e geografia, com a sensação de que ainda nascerá muita coisa boa desta simbiose.

Seja como for, acredito que o Brasil que falta descobrir é o Brasil espiritual. Se a primeira descoberta se fez com caravelas, esta segunda far-se-á com metáforas. Estou pronto e quero partir à aventura. Será?

Tenciono apresentar o meu livro 1985 - Uma Distopia espiritual este ano no Brasil.

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